Pedro Alcântara

Pedro Alcântara

Local de nascimento Rio de Janeiro, Brasil
Nasc. / falec. 1926 - 1999
Escola e ano de formação Universidade do Brasil (UFRJ) ,  1950

Biografia

Antônio Pedro Gomes de Alcântara foi arquiteto, professor, pesquisador vinculado ao campo da preservação do patrimônio cultural brasileiro. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 27 de outubro de 1926. Sua trajetória aparece fortemente associada à arquiteta Dora Monteiro e Silva de Alcântara, sua esposa e parceira profissional. Ingressou na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, em meados da década de 1940, obtendo o diploma de conclusão de curso em 1950. Seu ambiente de formação foi marcado pelos debates sobre a identidade da arquitetura brasileira, arquitetura colonial, barroco luso-brasileiro, modernidade e preservação. Nesse contexto, surge como influência direta o professor e arquiteto Paulo Ferreira Santos, figura central na valorização do estudo da arquitetura colonial e barroca, e na crítica arquitetônica brasileira. Essa influência ajuda a compreender a trajetória de Antônio Pedro em direção ao patrimônio, à leitura histórica da arquitetura e à intervenção em edifícios e conjuntos urbanos de valor cultural. Também foram encontrados registros de seu mestrado pela Escola de Comunicação da UFRJ, com a dissertação intitulada Arquitetura moderna brasileira: episódios de sua trajetória, defendida na década de 1980.

A trajetória profissional de Antônio Pedro se torna mais nítida a partir de sua inserção no campo da preservação e de sua atuação no Maranhão. Fontes memorialísticas indicam que, após a graduação, ele teria participado de iniciativas de divulgação da arquitetura moderna brasileira, inclusive por meio do Núcleo de Estudos e Divulgação de Arquitetura no Brasil, vinculado ao Instituto de Arquitetos do Brasil. Nesse período, teria participado da organização de uma exposição sobre o arquiteto Luís Nunes, em Pernambuco, no ano de 1957. Essa inciativa o aproximou de Antônio Pedro de Ayrton de Carvalho, representante do então Serviço de Patrimonio histórico e artístico nacional (SPHAN) em Pernambuco, abrindo caminho para sua relação com o patrimônio nacional. Em 1958, Antônio Pedro teria viajado ao Maranhão e começado a enviar voluntariamente ao SPHAN, informações sobre o patrimônio cultural local, mantendo correspondência com Rodrigo Melo Franco de Andrade, então presidente do órgão. Em 1959, foi encarregado de obras em São Luís, atuando no Palácio Cristo Rei e em bens culturais de Alcântara. Nesse período, o nome de Pedro já aparece em documentação ao lado de sua esposa Dora, como arquitetos ligados ao patrimônio nacional que moravam e atuavam em São Luís e Alcântara. Na década seguinte, elaboraram um plano de preservação para Alcântara, depois publicado como Plano de Recuperação de Alcântara.

O plano consiste em estratégias de preservação, recuperação física e valorização cultural da cidade, com elaboração entre 1963 e 1971 e publicado na revista Acrópole nesse último ano. O plano recebeu reconhecimento no âmbito da 8ª Premiação Anual do IAB, em 1970, na categoria de Plano de Recuperação Física e Valorização Cultural. Foi a partir da atuação de Pedro e Dora em Alcântara, que o casal ficou conhecido como integrantes de uma rede de profissionais que atuaram como “arquitetos peregrinos”, conceito usado por Grete Pflueger, a partir de Hugo Segawa, para designar arquitetos que circularam por diferentes regiões do país disseminando ideias modernas, consultorias, planos e projetos.

A partir dos anos 1970, se destaca a atuação de Antônio Pedro em Belém do Pará, quando iniciou o processo de inventário da azulejaria na cidade. Essa iniciativa seria posteriormente reconhecida pela publicação Azulejaria em Belém do Pará: inventário: arquitetura civil e religiosa: século XVIII ao XX, editada pelo IPHAN em 2016 e dedicada a Antônio Pedro por sua esposa, que escreveu a publicação em parceria com Stella Regina Soares de Brito e Thaís Alessandra Bastos Caminha Sanjad. Antônio Pedro é descrito como responsável pelo início do processo de inventário, ampliando sua atuação para além da intervenção arquitetônica, contemplando estudos e pesquisas relacionados à documentação, inventário, classificação e preservação de elementos construtivos e decorativos associados à arquitetura civil e religiosa.

Ainda na década de 1970, é registrada a atuação do casal Alcantara na Fortaleza de São José de Macapá, onde realizaram pesquisa histórica, iconográfica e documental, assinando o Diagnóstico Histórico e Físico da Fortaleza de São José de Macapá, em 1978, documento integrante do Relatório Preliminar do Projeto de Restauração.

Antônio Pedro também aparece como professor na Faculdade de Arquitetura de Barra do Piraí, associada à Fundação Educacional Rosemar Pimentel, sem data específica de atuação. Já sua esposa, Dora, aparece com vínculo na mesma faculdade entre 1971 e 1987. Sua docência pode ser descrita como uma dimensão relevante de sua trajetória, articulada à formação de jovens arquitetas que integraram equipes de restauração e pesquisa patrimonial.

A atuação institucional de Antônio Pedro também é destacada. Em 1963, no Seminário de Habitação e Reforma Urbana, promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil e pelo Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, atuou como relator do Grupo III, dedicado à Reforma Urbana: medidas para o estabelecimento de uma política de planejamento urbano e de habitação, tendo Joaquim Guedes como moderador. Em 1973, aparece como consultor vinculado ao IAB/GB no Concurso Nacional para a sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, em Brasília. Em meados dessa mesma década, no contexto da mobilização contra a demolição do Palácio Monroe, é identificado como vice-presidente do IAB-RJ, ao lado de Luiz Paulo Conde, então presidente, e Alfredo Luiz Porto de Britto, secretário da entidade. Sua presidência no IAB-RJ também está confirmada no ano de 1979, entre a gestão de Luiz Paulo Fernandez Conde – 1974 a 1978, e Rui Rocha Veloso -1980 a 1981.

Na década de 1980, o Solar São Luís, também denominado Edifício São Luís, em São Luís do Maranhão, é o projeto de restauro melhor documentado associado diretamente ao arquiteto. Trata-se de um edifício histórico do século XIX cujo interior foi destruído por incêndio em 1969. O imóvel foi adquirido pela Caixa Econômica Federal em 1976 para instalar sua sede. Antônio Pedro foi contratado em 1978 para elaborar o projeto de restauro e adequação do imóvel, que iniciou suas obras em 1980. A solução arquitetônica atribuída a Antônio Pedro partia da impossibilidade de reconstituir integralmente o interior original do edifício, tanto pela falta de documentação quanto pelo custo. Em vez de uma reconstrução mimética, o projeto introduziu uma intervenção moderna no interior do edifício histórico, articulando novos pavimentos, lajes intermediárias e relações visuais entre níveis distintos, ao mesmo tempo em que preservava elementos arquitetônicos significativos. A agencia foi inaugurada em 1982 e integraram a equipe responsável pelo projeto sua esposa, Lia Motta, Isabel Rocha, Cláudia Virgínia Cabral de Souza, Moira de Toledo, Vera de Alcântara e o perspectivista Gerson Conforti. O Solar São Luís é particularmente relevante porque sintetiza a prática e a reflexão de Antônio Pedro como arquiteto de restauro, leitor da arquitetura barroca e defensor de intervenção contemporânea em edifício reconhecido como patrimônio cultural.

Em relação à produção intelectual conhecida de Antônio Pedro, se destaca o artigo “Aspectos do espaço barroco na arquitetura civil dos séculos XIX e XX”, publicado na Revista Barroco, n. 12, em 1982/1983, e republicado em Arquitextos/Vitruvius em 2012. O texto apresenta uma leitura do espaço barroco na arquitetura civil brasileira e se relaciona diretamente com a reflexão sobre o Solar São Luís. Outro texto importante é “A aparência das coisas”, publicado postumamente na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 29, em 2001.

Nos anos 1980, a atuação de Antônio Pedro Gomes de Alcântara no IPHAN/SPHAN aparece associada sobretudo à elaboração de pareceres, informações técnicas, diagnósticos e estudos voltados a processos de tombamento, preservação e restauração. Entre as ocorrências melhor documentadas podem ser citadas: o Conjunto Arquitetônico de Manguinhos/Fiocruz e ao antigo biotério, no Rio de Janeiro, em 1980; a Informação n. 47 sobre a Igreja de São João Baptista, no Espírito Santo, em 1981; as Informações n. 23 e 51 sobre o Parque ou Serra de Monte Santo, em Monte Santo, Bahia, em 1982; a Informação 81/83 sobre a Avenida Modelo, conjunto de habitação coletiva situado na Rua Regente Feijó, no Rio de Janeiro, em 1983; a Informação de 24 de maio de 1984 relativa às obras de Lucio Costa; o parecer no processo do Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, Rio de Janeiro, em 1984-1985; e o parecer referente ao Açude do Cedro, em Quixadá, Ceará. Ao lado desse conjunto mais consistente, há participações atribuídas a Antônio Pedro em outras frentes, como referências a estudos ou ações preservacionistas na SAARA, Rua da Carioca, Rua da Alfândega, Praça XV de novembro, Casa do Bispo, Convento de Santo Antônio e Chafariz da Praça XV de novembro, no Rio Janeiro; e no Maranhão, além do Solar São Luís, há referências à atuação nos bens culturais de Alcântara, no Palácio Cristo Rei e na recuperação de escolas da capital durante o governo José Sarney.

Antônio Pedro Gomes de Alcântara faleceu no Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1999, recebendo homenagens póstumas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no IAB Nacional e no Confea. Também há menções relacionadas a Antônio Pedro no Livro do Mérito do Confea, Medalha Comemorativa Rodrigo Melo Franco de Andrade, Medalha do Mérito Profissional do CREA-RJ e no Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Produção destacada

Alcântara - MA

Plano de Recuperação de Alcântara – 1963 - 1971

Coautor ou participante central, ao lado de Dora Alcântara, em plano urbano-patrimonial de preservação, recuperação física e valorização cultural de cidade histórica, posteriormente publicado na revista Acrópole.

São Luís - MA

Projeto de reforma, adequação e restauro do Solar São Luís – 1978 - 1982

Responsável pelo projeto de restauro e adequação do imóvel para uso da Caixa Econômica Federal; equipe com Dora Alcântara, Lia Motta, Isabel Rocha, Cláudia Virgínia Cabral de Souza, Moira de Toledo, Vera de Alcântara e Gerson Conforti.

Belém - PA

Inventário da azulejaria de Belém do Pará – Início 1971

Responsável pelo início do processo de inventário, documentação e classificação de elementos construtivos e decorativos associados à arquitetura civil e religiosa., depois reconhecido na publicação do IPHAN Azulejaria em Belém do Pará. Atribuição consistente como iniciador do processo; não se atribui a Antônio Pedro a autoria da publicação final de 2016.

Rio de Janeiro – RJ

Estudos e ações preservacionistas no Rio de Janeiro

Participação em frentes preservacionistas vinculadas às áreas do Saara, Rua da Carioca, Rua da Alfândega, Praça XV de Novembro, Casa do Bispo, e Convento de Santo Antônio.

Saiba mais

ALCÂNTARA, Antônio Pedro Gomes de. A aparência das coisas. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 29, p. 170-197, 2001.

ALCÂNTARA, Antônio Pedro Gomes de. Arquitetura moderna brasileira: episódios de sua trajetória. Dissertação (Mestrado em Comunicação) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, [1982, 1984 ou 1989].

ALCÂNTARA, Antônio Pedro Gomes de. Aspectos do espaço barroco na arquitetura civil dos séculos XIX e XX. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 149.08, out. 2012. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.149/4535.

ALCÂNTARA, Antônio Pedro Gomes de. Aspectos do espaço barroco na arquitetura civil dos séculos XIX e XX. Barroco, Belo Horizonte, n. 12, p. 67-70, 1982/1983.

ALCÂNTARA, Antônio Pedro Gomes de; ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de. Recuperação de Alcântara. Acrópole, São Paulo, 1971. Referência pendente de conferência visual integral quanto ao número, páginas e forma exata do título.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de. Fortaleza de São José de Macapá. Rio de Janeiro: H. J. Cole, 1979.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de; BRITO, Stella Regina Soares de; SANJAD, Thaís Alessandra Bastos Caminha. Azulejaria em Belém do Pará: inventário: arquitetura civil e religiosa: século XVIII ao XX. Brasília: IPHAN, 2016.

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Projeto de Resolução n. 791/2024. Rio de Janeiro: ALERJ, 2024.

CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO BRASIL. Dora Alcântara recebe Colar de Ouro, maior comenda do IAB. Brasília: CAU/BR, 2019.

INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL, Departamento do Rio de Janeiro. Dora Alcântara: uma vida dedicada ao patrimônio brasileiro. Rio de Janeiro: IAB/RJ, 2026.

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INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Página institucional — Patrimônio azulejar de Belém do Pará. Brasília: IPHAN, 2016. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/3782/livro-revela-a-riqueza-da-azulejaria-de-belem-pa.

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PFLUEGER, Grete Soares. De Tapuitapera a Villa D’Alcântara: composição urbana e arquitetônica de Alcântara no Maranhão. 2002. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) — Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2002.

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SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. São Paulo: EDUSP, 1999.


Imagens

Foto 9 – Pedro Alcântara  – fonte: Acervo particular;

Foto 9.2 – Solar São Luiz, atual se de da CEF – vista externa – São Luiz do Maranhão, MA – fonte: site Vitruvius, Arquitextos, outubro de 2012, ano 13, ISSN 1809-6298;

Foto 9.2.1 – Solar São Luiz, atual se de da CEF – vista externa – São Luiz do Maranhão, MA – fonte: site Vitruvius, Arquitextos, outubro de 2012, ano 13, ISSN 1809-6298;

Foto 9.2.2 – Solar São Luiz, atual se de da CEF – vista interna – São Luiz do Maranhão, MA – fonte: site Vitruvius, Arquitextos, outubro de 2012, ano 13, ISSN 1809-6298;

Foto 9.2.3 – Solar São Luiz, atual se de da CEF – vista interna – São Luiz do Maranhão, MA – fonte: site Vitruvius, Arquitextos, outubro de 2012, ano 13, ISSN 1809-6298;

Foto 9.3 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 10;

Foto 9.3.1 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 11;

Foto 9.3.2 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 12;

Foto 9.3.3 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 13;

Foto 9.3.4 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 14;

Foto 9.3.5 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 15;

Foto 9.3.6 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 16;

Foto 9.3.7 – Plano de Recuperação de Alcântara – Maranhão, MA – Prêmio Especial do IAB-GB em 1970 – fonte: Revista Acrópole, ano 04/1971, nº 383, pág. 17;

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