CAU/RJ
Archimedes Memória foi arquiteto, professor e dirigente ligado à Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro, pertencente à tradição acadêmica e eclética da arquitetura brasileira nas primeiras décadas do século XX. Nasceu em 7 de março de 1893, no sítio Gameleira, próximo da atual Várzea do Jiló, no município de Ipu, Ceará.
A trajetória de Archimedes Memória se desloca do Ceará para o Rio de Janeiro no início da década de 1910, ano associado ao ingresso na Escola Nacional de Belas Artes, herdeira da Academia Imperial de Belas Artes. Nesse período, o ensino era marcado pela tradição acadêmica e valorização da composição arquitetônica. Ingressou nesse ambiente como aluno, inicialmente ligado ao desenho, e depois ao curso de arquitetura, com conclusão entre 1916 e 1917. A tradição também situa Memória próximo aos professores Heitor de Mello, Adolfo Morales de los Ríos e Gastão Bahiana.
A passagem de Archimedes Memória da formação para a prática profissional ocorreu no circuito institucional da ENBA e do Escritório Técnico Heitor de Mello, que foi seu professor e teve papel decisivo na sua inserção profissional. Nesse período, o escritório era considerado uma organização profissional voltada ao desenvolvimento de projetos, acompanhamento e fiscalização de obras, sendo frequentemente citado na historiografia como um dos marcos da profissionalização do campo arquitetônico no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Após a morte de Heitor de Mello, em 1920, Archimedes Memória e Francisque Couchet, arquiteto franco-suíço, passaram a atuar como continuadores do escritório.
A década de 1920 foi o período de maior projeção profissional de Memória, que juntamente com Couchet iniciaram uma intensa produção de projetos e obras públicas, cívicas e monumentais no Rio de Janeiro. É também o período em que se concentram as principais cautelas autorais, pois algumas obras com atuação da dupla derivam de projetos iniciados por Heitor de Mello, outras foram executadas como produção de escritório e outras aparecem como atribuições em fontes secundárias. O Palácio Pedro Ernesto, atual sede da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, é um caso exemplar. O projeto original é associado ao Escritório Técnico Heitor de Mello. Após sua morte, Archimedes Memória e Francisque Couchet teriam desenvolvido ou dado continuidade ao projeto, concluído e inaugurado em 1923.
Na Exposição Internacional do Centenário da Independência, inaugurada em 1922, no Rio de Janeiro, Memória e Couchet aparecem associados ao plano urbanístico e ao projeto de pavilhões, entre eles, o Palácio das Festas e o Palácio das Grandes Indústrias. A exposição reuniu edifícios permanentes, adaptações e construções efêmeras, muitas das quais foram demolidas ou desmontadas posteriormente. No caso do conjunto do atual Museu Histórico Nacional, Memória teria participado da remodelação ou adaptação de suas estruturas preexistentes, utilizando linguagem neocolonial, particularmente associada ao Pavilhão das Grandes Indústrias.
O Palácio Tiradentes, antiga sede da Câmara dos Deputados e atual edifício histórico vinculado à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, é a obra mais sólida associada à dupla, com projeto aprovado em 1921 e prédio inaugurado em 6 de maio de 1926. O edifício, de linguagem eclética monumental e referências classicizantes, utilizou soluções estruturais avançadas para a época, e se tornou uma das principais obras cívicas do Rio de Janeiro republicano. Outras obras desse período aparecem com frequência associados à dupla no Rio de Janeiro, como o Hipódromo da Gávea ou Jockey Club Brasileiro, com início de construção em 1924 e inauguração em 1926. O Hotel Balneário da Urca, depois Cassino da Urca e sede da TV Tupi. Além do Palácio do Comércio e da Sede do Botafogo de Futebol e Regatas.
Em 1929, a sociedade Archimedes Memória e Francisque Couchet foi dissolvida. A bibliografia registra que os dois arquitetos teriam doado a biblioteca conjunta à ENBA. Archimedes Memória continuou atuando profissionalmente e transferiu o escritório da Rua da Quitanda para a Rua Sete de Setembro, no centro do Rio de Janeiro.
Em paralelo à prática profissional no escritório, Archimedes Memória construiu carreira docente na Escola Nacional de Belas Artes, sucedendo Heitor de Mello em disciplinas ligadas ao Desenho de ornatos, Elementos de arquitetura e Composição. Em 1931, após a breve e decisiva gestão de Lúcio Costa na direção da escola, Memória assumiu a direção da instituição. A gestão de Lúcio Costa, iniciada em 1930, é frequentemente associada às tentativas de reforma do ensino artístico e à abertura ao modernismo, tendo como episódio simbólico o Salão Revolucionário de 1931. A entrada de Archimedes Memória na direção, permanecendo até 1934 e sendo reconduzido em 1938, deve ser entendida no contexto das disputas entre tradição acadêmica, ecletismo e historicismo em relação ao modernismo.
Um dos episódios mais decisivos da trajetória pública de Archimedes Memória foi o concurso para a sede do Ministério da Educação e Saúde, em 1935. O arquiteto venceu o concurso com o chamado Projeto Pax, de linguagem vinculada ao art déco e referências historicistas e neocoloniais, inclusive com elementos associados ao repertório marajoara. O projeto foi premiado, mas não executado. O ministro Gustavo Capanema rejeitou a proposta vencedora e encaminhou outro processo projetual, contratando Lúcio Costa e uma equipe de arquitetos modernos, com participação de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e consultoria de Le Corbusier. O edifício, posteriormente conhecido como Palácio Gustavo Capanema, tornou-se um marco da arquitetura moderna brasileira.
O conflito em torno do Ministério da Educação e Saúde tornou-se peça central da fortuna crítica de Archimedes Memória. A carta de protesto enviada por ele ao presidente da República, posteriormente transcrita em artigo de Carlos Drummond de Andrade na Revista Módulo, em setembro de 1975, é uma fonte primária importante da voz do próprio arquiteto, núcleo interpretativo da disputa entre tradição e modernidade na arquitetura brasileira. O caso contribuiu para que Memória fosse posteriormente lido por parte da historiografia moderna como figura derrotada, deslocada ou superada, rótulo que a pesquisa recente vem revisando criticamente.
A atuação política do arquiteto é mencionada especialmente por sua aproximação com a Ação Integralista Brasileira. As fontes indicam filiação, participação em instâncias internas do movimento, candidatura em 1935 e atividades de formação cultural no âmbito integralista. A proximidade com o integralismo tem importância historiográfica porque ajuda a compreender o apagamento posterior do arquiteto em uma narrativa construída em torno da vitória do modernismo e de seus protagonistas. A revisão contemporânea tem procurado recolocar Archimedes Memória não como simples antagonista do modernismo, mas como personagem-chave para entender a complexidade das disputas de estilo, ensino, profissão e cultura arquitetônica no Brasil entre as décadas de 1910 e 1940.
Após o episódio do Ministério da Educação e Saúde, a produção de arquiteto parece ter perdido centralidade pública. As fontes indicam retração de sua atuação em grandes encomendas e maior associação a projetos religiosos, institucionais ou residenciais. A Igreja ou Capela de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Botafogo, no Rio de Janeiro, é atribuída a Archimedes Memória e Francisque Couchet em fontes secundárias. A edificação é geralmente descrita em linguagem art déco, com participação de artistas como Carlos Oswald, responsável pelos elementos decorativos. O altar-mor da Igreja da Candelária, o Rio Cassino, obras residenciais, projetos em Ipu, agência dos Correios & Telégrafos em Belém e pavilhões da Faculdade Nacional de Arquitetura aparecem como atribuições a Archimedes Memória ou à parceria Memória-Couchet por fontes secundárias. Também aparece em algumas fontes a afirmação de que Memória teria produzido 135 projetos na década de 1920 e apenas 16 na década de 1940.
O principal acervo conhecido para a pesquisa sobre o arquiteto é o Fundo Archimedes Memória, no Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD) da FAU-UFRJ, que inclui grande volume de documentação projetual, desenhos, plantas e materiais de escritório.
Archimedes Memória recebeu reconhecimento institucional posterior, sobretudo no ambiente da FAU-UFRJ, onde há, inclusive, um auditório com seu nome, e em textos relacionados à arquitetura carioca. A revalorização acadêmica recente de Memória é significativa e as pesquisas sobre o acervo do NPD/FAU-UFRJ contribuíram para deslocar a leitura do arquiteto como mero representante tardio do ecletismo para ser compreendido como figura estratégica para estudar a passagem entre academicismo, historicismo e consolidação do modernismo brasileiro.
Archimedes Memória faleceu no Rio de Janeiro, em 20 de setembro de 1960, aos 67 anos. A Brasiliana Fotográfica registra que sua morte ocorreu de forma súbita, enquanto fazia ginástica em casa, e informa que, naquele momento, o arquiteto ocupava a condição de decano da Faculdade Nacional de Arquitetura. Entre as homenagens póstumas mais consistentes, destaca-se a preservação de seu nome no próprio ambiente institucional em que se formou, lecionou e exerceu funções de direção.
Rio de Janeiro - RJ
Coautoria com Francisque Couchet.
Rio de Janeiro - RJ
Arquiteto em desenvolvimento ou continuidade de projeto original associado ao Escritório Técnico Heitor de Mello, em coautoria/atuação de escritório com Francisque Couchet.
Rio de Janeiro - RJ
Arquiteto coautor com Francisque Couchet em remodelação/adaptação de estruturas preexistentes para a Exposição Internacional do Centenário da Independência, em 1922, associada ao Pavilhão das Grandes Indústrias, conjunto do atual Museu Histórico Nacional.
Rio de Janeiro - RJ
Edificação efêmera/demolida na área do Calabouço, Centro, Rio de Janeiro. Memória foi arquiteto coautor com Francisque Couchet no conjunto de pavilhões da Exposição Internacional do Centenário da Independência.
Rio de Janeiro - RJ
Memória foi arquiteto coautor com Francisque Couchet.
Rio de Janeiro - RJ
Memória foi arquiteto coautor com Francisque/Francisco Cuchet; participação decorativa atribuída a Carlos Oswald nos elementos artísticos.
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Foto 10 – Archimedes Memória – fonte: Acervo do MIS-RJ (Museu da Imagem e do Som);
Foto 10.1 – Palácio das Festas para a exposição do centenário de independência (1922) – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1923, edição 0003, pág. 97;
Foto 10.1.1 – Palácio das Festas para a exposição do centenário de independência (1922) – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1921, edição 00024, pág. 152;
Foto 30.1 – Palácio de Festas para a exposição do centenário da Independência, Rio de janeiro, RJ – fonte: Acervo da Revista Architectura no Brasil/BND, edição 0003, ano 1921, pág. 96;
Foto 10.2 – Palácio das Industrias para a exposição do centenário de independência (1922) – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1921, edição 0003, pág. 99;
Foto 10.2.1 – Palácio das industrias para a exposição do centenário de independência (1922) – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1921, edição 0003, pág. 101;
Foto 10.2.2 – Palácio das industrias para a exposição do centenário de independência (1922) – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1922, edição 0007, pág. 19;
Foto 10.3 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora, ano do lançamento 1926, pág. 77 – linha 14;
Foto 10.3.1 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – desenho – ano do lançamento 1926, pág. 77 – linha 14;
Foto 10.3.2 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 77 – linha 14;
Foto 10.3.3 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 80 – linha 13;
Foto 10.3.4 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – desenho com detalhe da cúpula – ano do lançamento 1926, pág. 80 – linha 38;
Foto 10.3.5 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 78 – linha 13;
Foto 10.3.6 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 96 – linha 17;
Foto 10.3.7 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 96 – linha 36;
Foto 10.3.8 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 98 – linha 29;
Foto 10.3.9 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 100 – linha 28
Foto 10.3.10 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Livro do Centenário da Câmara dos Deputados (1826-1926) Empreza Brasil editora – ano do lançamento 1926, pág. 96 – linha 8;
Foto 10.3.11 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – Planta do pavimento térreo e corte – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1922 edição 0004, pág. 134;
Foto 10.3.12 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fachada principal – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1922 edição 0004, pág. 135;
Foto 10.3.13 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – Plantas do segundo e terceiro pavimentos – fonte: Revista Architectura no Brasil, ano 1922 edição 0004, pág. 137;
Foto 10.3.14 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – fonte: Revista Architectura no Brasil/BND, ano 1926, edição 00029, pág. 147;
Foto 10.3.15 – Palácio Tiradentes, Centro, RJ – detalhe da estrutura da claraboia – fonte: Revista Architectura no Brasil/BND, ano 1926, edição 00029, pág. 154;
Foto 10.5 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: IMS/Coleção Augusto Malta, circa 1927;
Foto 10.5.1 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: IMS/Coleção Augusto Malta, data: 02/06/1928;
Foto 10.5.2 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 2024;
Foto 10.5.3 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 2024;
Foto 10.5.4 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 2024;
Foto 10.5.5 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 2024;
Foto 10.5.6 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 2024;
Foto 10.5.7 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 06/2026;
Foto 10.5.8 – Palácio Pedro Ernesto, Cinelândia, RJ – fonte: Urbanacon, 06/2026;
Foto 10.7 – Jockey Club Brasileiro – fonte: IMS/Coleção Augusto Malta, data: 15/07/1926;
Foto 10.7.1 – Jockey Club Brasileiro – fonte: IMS/Coleção Augusto Malta, data: circa 1926;
Foto 10.7.2 – Jockey Club Brasileiro – fonte: IMS/Coleção Gilberto Ferrez, data: circa 1920;
Foto 10.7.3 – Jockey Club Brasileiro – fonte: IMS/Coleção Marcel Gautherot, data: circa 1957;
Foto 10.9 – Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus, Botafogo, RJ – fonte: Urbanacon 2024;
Foto 10.9.1 – Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus – vista interna, Botafogo, RJ – fonte: Urbanacon 2024;
Foto 10.9.2 – Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus – vista interna, Botafogo, RJ – fonte: Acervo particular, circa decada de 1960;