Déa Paranhos

Déa Paranhos

Local de nascimento Rio de Janeiro, Brasil
Nasc. / falec. 1915 - 2001
Escola e ano de formação Escola Nacional de Belas Artes da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ) ,  1934

Biografia

Déa Torres Paranhos nasceu em 5 de março de 1915 no Rio de Janeiro, filha de Alfredo de Mattos Paranhos e Olga Torres de Paranhos. Antes do ensino superior, estudou no Instituto La-Fayette, tradicional estabelecimento de ensino situado na Tijuca. Em abril de 1930, aos 15 anos, ingressou no curso especial de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes, então vinculada à Universidade do Rio de Janeiro, num período de forte instabilidade e renovação do ensino arquitetônico. Sua entrada coincidiu com a breve direção de Lúcio Costa, entre 1930 e 1931, momento em que a escola se tornou palco de disputas em torno da reforma do ensino, da incorporação de conteúdos modernos e da própria afirmação da arquitetura como formação profissional autônoma. A turma de matrícula de 1930 era a mesma de Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx, embora este último não conste entre os engenheiros-arquitetos formados em 1934. A turma reunia originalmente 137 alunos, dos quais 15 eram mulheres. No entanto, no álbum de formatura da turma, aparecem apenas 48 formandos, sendo Déa Paranhos a única mulher, com 19 anos. Durante o curso, também se vinculou à vida estudantil e às redes de universitárias, aparecendo associada ao Diretório Acadêmico da Escola Nacional de Belas Artes, à Revista de Arquitetura – organizada por estudantes em 1935 no contexto dos debates de reformulação do curso, e à União Universitária Feminina, entidade criada por Bertha Lutz e Carmen Portinho para apoiar mulheres no ensino superior, inclusive por meio de bolsas de estudo.

Ainda em 1934, prestou concurso para a Prefeitura do Distrito Federal para o cargo de desenhista. No ano seguinte, já formada e registrada, foi nomeada. O registro profissional de Déa Paranhos no sistema de Engenharia e Arquitetura do CREA-RJ aparece em 1935, sendo citada por fontes institucionais e de divulgação como a primeira mulher a obter registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro.

Após formar-se engenheira-arquiteta, vinculou-se como aluna no curso de Urbanismo da Universidade do Distrito Federal – UDF, para uma formação complementar, tendo como colega Carmen Portinho, com quem escreveu dois artigos em coautoria. O primeiro é Aerophotogametria, de 1936; o segundo: Aerophotogametria: notas das aulas do curso de urbanismo da UDF, de 1937. Sua diplomação pela UDF permanece controversa: as fontes convergem em indicar que ela frequentou o curso e chegou à etapa final, mas divergem quanto ao desfecho, informando que ela defendeu, em janeiro de 1939, o trabalho Projeto de melhoramentos na cidade do RJ, mas não foi aprovada em razão de divergências políticas com a banca, sugerindo que o conflito teria ultrapassado uma avaliação estritamente técnica.

Em 19 de julho de 1937, Déa participou da fundação da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas – ABEA , criada no Rio de Janeiro sob liderança de Carmen Portinho. Sua participação deve ser entendida como parte de um esforço coletivo de inserção e reconhecimento de mulheres em campos profissionais técnicos ainda fortemente masculinos. A entidade reunia engenheiras e arquitetas e articulava redes de apoio, visibilidade profissional e atuação pública. Déa teria exercido a função de primeira secretária da associação. Além da ABEA, Déa Paranhos aparece vinculada a redes como a União Universitária Feminina e, em 1947, ao Club Soroptimista. O Club Soroptimista do Rio de Janeiro foi a primeira filial brasileira e latino-americana do movimento soroptimista, criada em 9 de setembro daquele ano por iniciativa de Carolina Tibbets, representante do Club Soroptimista de Nova York, com apoio de Bertha Lutz e Carmen Portinho. O clube reunia mulheres profissionais de destaque e funcionava inicialmente na residência de Sophia Jobim, em Santa Teresa, articulando sociabilidade feminina, assistência social, intercâmbio cultural e defesa da profissionalização das mulheres. O registro mais específico da presença de Déa Paranhos vem de notícia do jornal A Noite, de 17 de setembro de 1947, na primeira organização do clube, Déa aparece como “arquiteta” e membro do Conselho Diretor, ao lado de Bertha Lutz, Carmen Portinho e Maria Lenk.

Nos anos 1940, consolidou sua inserção no serviço público carioca e desenvolveu um importante trabalho de campo em favelas do Rio de Janeiro, examinando modos de vida e moradia. Em 1941, participou do I Congresso Brasileiro de Urbanismo, realizado no Rio de Janeiro, com atuação em comissão ligada ao financiamento das obras de urbanização, ao lado de nomes como José Otacílio de Saboia Ribeiro, Jorge Schnoor, Luiz Castro Dodsworth Martins, Albino dos Santos e Paulo Camargo de Almeida. Essa comissão discutia planos reguladores, procedimentos de execução, fundos especiais para desapropriações, legislação expropriatória e assistência social vinculada ao plano urbanístico da cidade. Em 30 de maio de 1942, seu nome aparece associado a uma delegação encarregada de escolher profissionais para os trabalhos vinculados às obras da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1949, foi promovida ao cargo de “arquiteto” do quadro permanente da Prefeitura do Distrito Federal e, no mesmo ano, recebeu nova promoção funcional. Em 14 de junho de 1952, já no contexto do Departamento de Urbanismo, Déa Paranhos foi citada entre os profissionais responsáveis por obras em diversas ruas da cidade, com destaque para as intervenções de alargamento do Túnel Rio Comprido-Laranjeiras, ou Túnel da Rua Alice.

Com a iminente transferência da capital federal para Brasília e a criação do Estado da Guanabara, parte da estrutura técnica urbana do antigo Distrito Federal foi reorganizada. A criação da Superintendência de Urbanização e Saneamento – SURSAN, em 1957, deslocou a atuação urbanística carioca para uma escala mais ampla de obras públicas. A superintendência surgiu como instrumento para viabilizar planos e obras de urbanização e saneamento que vinham sendo formulados desde o Departamento de Urbanismo da Prefeitura. Estudos sobre as obras públicas do Rio de Janeiro mostram que a SURSAN articulava sistema viário, saneamento, túneis, aterros, canais, avenidas e investimentos de grande porte. Sua transferência ocorreu em 1958, quando passou a ocupar a chefia do Serviço de Urbanismo e Arquitetura da Divisão Técnica. Durante seu período na chefia, destaca-se a realização da Exposição SURSAN, publicada na revista Módulo em dezembro de 1960. A exposição foi uma mostra institucional da Superintendência voltada à divulgação técnica das obras e ações urbanas do órgão. Nesse período, também se destaca as previsões orçamentárias que destinavam recursos à Perimetral, ao Túnel Catumbi–Laranjeiras, ao desmonte do Santo Antônio/Aterro do Flamengo e ao saneamento em geral. É nesse universo institucional que se deve destacar a atuação de Déa Paranhos como uma profissional que participou da máquina técnica de produção e divulgação do urbanismo carioca, em um período no qual a cidade passava da condição de capital federal à de capital do Estado da Guanabara. Em relação às obras do Aterro do Flamengo, Déa Paranhos teria sido citada por Lota de Macedo Soares em carta a Carlos Lacerda após sua nomeação como assessora do Departamento de Parques e da SURSAN em 1961.

Em 1965, no contexto das comemorações do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro, aparece associada ao livro Rio de Janeiro em seus quatrocentos anos: formação e desenvolvimento da cidade. Na ficha técnica aparece o registro de idealização e direção de Fernando Nascimento Silva, com assessoria de Déa Torres Paranhos. A obra, dedicada à formação e ao desenvolvimento da cidade, reunia olhares de engenheiros, arquitetos, sanitaristas, geógrafos, geólogos e historiadores. No ano seguinte, após uma viagem à Iugoslávia, Déa teria começado a sentir problemas nos olhos, perdido a visão e se aposentado, se afastando da vida profissional.

Déa Torres Paranhos faleceu no Rio de Janeiro em 2001. Sua memória permaneceu durante muito tempo à margem da historiografia da arquitetura brasileira, em parte porque sua trajetória foi no serviço público, em equipes técnicas e em campos como urbanismo, habitação, saneamento, administração e produção institucional, campos de atuação que nem sempre produzem marcas autorais individualizadas. O resgate contemporâneo de sua trajetória aparece em trabalhos acadêmicos e institucionais recentes, especialmente nas pesquisas de Cinthia Lobato Serrano e Camila Almeida Belarmino, além de iniciativas do CAU/BR, da ABEA-RJ, da Enciclopédia Mulheres no Brasil e de matérias jornalísticas como as do Diário do Rio e da Veja.

Produção destacada

Rio de Janeiro - RJ

Superintendência de Urbanização e Saneamento – a partir de 1958

Déa Torres Paranhos foi chefe do Serviço de Urbanismo e Arquitetura da Divisão Técnica da SURSAN, serviço vinculado à realização da Exposição SURSAN, publicada na revista Módulo, em dezembro de 1960.

Livro

Rio de Janeiro em seus quatrocentos anos: formação e desenvolvimento da cidade – 1965

Déa Paranhos foi assessora da publicação, dedicada à formação e ao desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro.

Diretoria

União Universitária Feminina – décadas de 1930 e 1940

Déa participou ativamente da UUF compondo a diretoria em cargos diferentes ao longo dos anos.

Rio de Janeiro - RJ

Obras do Parque do Flamengo – 1961

Déa Torres Paranhos é citada por Lota de Macedo Soares em carta a Carlos Lacerda após a nomeação de Lota como assessora do Departamento de Parques e da SURSAN, por intervenções no projeto do Parque do Flamengo.

Saiba mais

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Imagens

Foto 16 – Déa Torres de Paranhos – Fotografia durante a cerimônia de formatura em urbanismo – fonte: Acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação – UFRJFAU – Brasil. Álbum de formatura engenheiros-architectos do ano de 1934;

Foto 16.2 – 1936/09/15 – Documento da União Universitária Feminina do 3º congresso nacional feminino – fonte: Arquivo Nacional;

Foto 16.5 – Exposição Sursan (Serviço de Arquitetura e Urbanismo) organizada por Déa Paranhos – fonte: BND, acervo da revista Módulo, ano 1960, edição 00021, pág. 13;

Foto 16.5.1 – Exposição Sursan (Serviço de Arquitetura e Urbanismo) organizada por Déa Paranhos – fonte: BND, acervo da revista Módulo, ano 1960, edição 00021, pág. 15;

Foto 16.11 – Capa do livro: O Rio de janeiro em seus Quatrocentos Anos – organizado por Déa Paranhos e outros – fonte: Idem item 16.9 –  Figura 92, pág. 340;

Foto 16.13 – Déa Paranhos na posse da diretoria da União Universitária Feminina – 1935-1936 – fonte: Idem item 16.9 –  Figura 103, pág. 375;

Foto 16.14 – Déa Paranhos em reunião da União Universitária Feminina, ano 1940 – fonte: Idem item 16.9 –  Figura 104, pág. 376;

Foto 16.15 – Déa Paranhos em reunião da União Universitária Feminina, com a presença de Mary Cannon (EUA), ano 1943 – fonte: Idem item 16.9 –  Figura 105, pág. 377;

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