Dora Alcântara

Dora Alcântara

Local de nascimento Rio de Janeiro, Brasil
Nasc. / falec. 1931
Escola e ano de formação Faculdade Nacional de Arquitetura (UFRJ) ,  1957

Biografia

Dora Monteiro e Silva de Alcântara nasceu no Rio de Janeiro em 13 de junho de 1931. Ingressou na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no início da década de 1950, obtendo seu diploma em 1957. Dora foi casada com o arquiteto Antônio Pedro Gomes de Alcântara, também formado na mesma Universidade e que foi um importante parceiro profissional associado à parte de sua trajetória.

Dora começou a colaborar com o órgão federal de preservação em 1958, logo após sua graduação, se aproximando do campo da preservação em período de consolidação das práticas de inventário, tombamento, documentação arquitetônica e intervenção em conjuntos históricos. Nesse período inicial, sua trajetória se desloca para o Maranhão em razão da atuação de seu marido. Em São Luís, iniciou levantamento de azulejos de fachada, inicialmente por croquis e depois por fotografias, em trabalho que viria a estruturar sua produção posterior sobre azulejaria luso-brasileira. A atuação de Dora e Antônio Pedro Alcântara no Maranhão se destaca pelos estudos, planos e propostas de recuperação para Alcântara, com ampla repercussão na discussão sobre preservação urbana. O plano foi publicado posteriormente na revista Acrópole, n.º 384, em 1971, com o título “Recuperação de Alcântara”.

Nas décadas de 1960 e 1970, a trajetória profissional de Dora Alcântara passou a se estruturar entre docência, pesquisa e atuação institucional no campo da preservação. Dora ingressou no quadro da então Universidade do Brasil em 1961, permanecendo nessa primeira condição até 1965. Entre 1965 e 1982, atuou na Escola de Belas Artes da UFRJ. Paralelamente, entre 1970 e 1974, foi professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Associação Universitária Santa Úrsula. Entre 1971 e 1987, lecionou na Faculdade de Arquitetura de Barra do Piraí, vinculada à Fundação Educacional Rosemar Pimentel – FERP. A partir de 1974 consolidou, também, sua atuação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, onde obteve a livre-docência em 1975, em área vinculada à Arquitetura brasileira, restauração e conservação de monumentos e conjuntos urbanos, permanecendo na instituição até 1991, ano de sua aposentadoria. Nesse mesmo ano, esteve ainda à disposição da Universidade Federal Fluminense, no Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

O período em que lecionou em Barra do Piraí é particularmente relevante, pois articula ensino, pesquisa de campo e preservação do patrimônio rural fluminense. Em entrevista publicada pelo CAU/BR, Dora recordou que, naquela instituição, orientou alunos em pesquisas e projetos de restauro de antigas fazendas da região cafeeira do Vale do Paraíba, que naquele período se encontravam decadentes ou abandonadas. Com autorização dos proprietários, os estudantes realizavam levantamentos, estudavam os estilos arquitetônicos da região, redesenhavam plantas e produziam material técnico que teria sido bem recebido e utilizado pelos donos das fazendas.

A partir de 1975, Dora Alcântara se reintegrou aos quadros do IPHAN, trabalhando com Lygia Martins Costa na Diretoria de Tombamento e Conservação. Entre 1978 e 1982 situa-se o projeto de reforma, adequação e restauro do Solar São Luís, atual Edifício São Luís, em São Luís do Maranhão, sede da Caixa Econômica Federal, projeto executado em parceria com seu marido Pedro Alcântara.

Na década de 1980, Dora aparece com papel destacado nos estudos de preservação de Petrópolis, por designação do então presidente do IPHAN, Aloísio Magalhães, quando ela integrou a comissão voltada ao estudo da extensão do tombamento da cidade, ao lado de Alcides da Rocha Miranda, Alfredo Luiz Porto, Eurico Cavalcante e Ana Maria Amorim. A contribuição de Dora Alcântara nesse contexto é associada ao folheto Petrópolis, arquitetura contextual: considerações sobre o caráter peculiar de Petrópolis, produzido pelo IPHAN por volta de 1980, com colaboração de Helena Mendes dos Santos, Marcia Regina Romeiro Chuva, Fernanda Marasciúlo e Ana Lúcia Belfort Magalhães. Esse estudo foi uma importante contribuição para a valorização de edificações cotidianas, vilas, fábricas, paisagens e ambiências urbanas, além da própria construção do conceito de arquitetura contextual na preservação brasileira.

Outro eixo da atuação de Dora Alcântara nos anos 1980 é a área da Praça XV de Novembro e suas imediações, no Centro do Rio de Janeiro, quando publicou o estudo “Praça XV e imediações: estudo de uma área histórica no Rio de Janeiro”, na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nº 20. Também é nessa década que publica a importante obra Azulejos portugueses em São Luís do Maranhão, pela editora Fontana. Em 1984, ela aparece como coordenadora da Divisão de Tombamento e Conservação do IPHAN/SPHAN/Pró-Memória, em documento relativo ao tombamento do centro histórico de Laguna, Santa Catarina. Em 1986, Dora participou da mesa redonda “Tombamento”, ao lado de Dina Lerner e Sônia Rabello, em debate relacionado às limitações e possibilidades jurídicas do tombamento, especialmente diante de bens culturais de matriz africana, como o Terreiro da Casa Branca. A transcrição desse debate foi publicada na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.º 22. Em 1988, Dora publicou “O sentido do tombamento” no Boletim SPHAN/Pró-Memória, n.º 39, sendo identificada como Coordenadora Geral de Preservação dos Bens Culturais e Naturais da SPHAN/Pró-Memória. Nesse período, aparece associada a processos e estudos que atravessavam diferentes regiões do país e que expressavam a ampliação do conceito de patrimônio para além do monumento arquitetônico tradicional. Em Laguna, Santa Catarina, sua atuação está vinculada ao processo de tombamento do centro histórico, em 1984. Também aparece em discussões ligadas ao tombamento do Terreiro da Casa Branca, ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká, em Salvador, Bahia, processo fundamental para a entrada dos bens de matriz africana no campo do patrimônio federal. A Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas, amplia esse mesmo campo para a memória afro-brasileira e quilombola. O tema central desse debate não era apenas a preservação de um sítio físico, mas a construção patrimonial de um lugar de memória do Quilombo dos Palmares, envolvendo área, território, paisagem, arqueologia, história nacional e representação da resistência negra.

Outro eixo importante de sua atuação está relacionado à paisagem cultural e natural. Em Monte Santo, Bahia, Dora aparece em informações técnicas relativas ao tombamento da serra (antiga Serra de Piquaraçá), juntamente com Antônio Pedro e Augusto Carlos da Silva Telles, também associados à tramitação técnica do processo. O caso envolve valores paisagístico-natural, urbanístico, arquitetônico e devocional, incluindo caminhos, capelas, bens móveis de arte sacra e práticas de cultura popular. A discussão sobre delimitação por cota altimétrica, área tombada, área de entorno e áreas de proteção, revela uma preocupação técnico-jurídica recorrente: como proteger paisagens extensas e socialmente significativas usando um instrumento legal concebido originalmente para monumentos e conjuntos edificados mais delimitáveis? Essa questão reaparece no processo do Cabo Branco/Ponta do Seixas, em João Pessoa, Paraíba, onde Dora assina as considerações técnicas sobre a aplicação do tombamento no processo da área destinada ao Parque Estadual do Cabo Branco e Ponta do Seixas, iniciado em 1986. O tema central era a preservação de uma paisagem litorânea parcialmente descaracterizada, mas ainda dotada de valor estético, geográfico e simbólico.

A presença de Dora em processos associados a Mogi das Cruzes, São Paulo, desloca o mapa para outro tema: a arquitetura da imigração japonesa e a ampliação do repertório étnico-cultural do patrimônio. Em Cachoeira Paulista, São Paulo, as referências localizadas apontam para discussões sobre bens ferroviários e vinculados à memória ferroviária do Vale do Paraíba. Em Natividade, hoje no Tocantins, Dora se insere no debate sobre conjuntos urbanos interiores ligados à mineração, à formação territorial do Brasil central e à leitura paisagística da cidade histórica.

A pesquisa sobre azulejaria luso-brasileira atravessa toda sua a trajetória. Além da já citada publicação sobre os azulejos de São Luís, organiza, em 1997, o livro Azulejos na cultura luso-brasileira. Em 2001, publica Patrimônio azulejar brasileiro: aspectos históricos e de conservação: azulejo, documento de nossa cultura. Outro trabalho sobre o tema é Azulejaria em Belém do Pará: inventário: arquitetura civil e religiosa: século XVIII ao XX, publicada pelo IPHAN em 2016, em coautoria com Stella Regina Soares de Brito e Thais Alessandra Bastos Caminha Sanjad.

Dora Alcântara aparece ainda vinculada ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ao Instituto de Arquitetos do Brasil e ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. Em 2020, ela recebeu o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil, maior comenda da entidade. O CAU/BR e o CAU/RJ registram que Dora Alcântara foi a segunda mulher a receber a distinção, depois de Rosa Kliass. Em 2024, recebeu, da ALERJ, a concessão da Medalha Tiradentes e respectivo diploma. Em 2025, o IPHAN lançou o livro Entrevista com Dora Alcântara, organizado por Helena Mendes dos Santos, como quarto volume da série Memórias do Patrimônio, vinculada ao Centro Lucio Costa e ao Projeto Memória Oral da Preservação do Patrimônio Cultural.

Dora Monteiro e Silva de Alcântara mora no Rio de Janeiro e continua sendo uma das principais referências na preservação do patrimônio cultural brasileiro.

Produção destacada

Livro

Azulejos na Cultura Luso-Brasileira – 1997

Organização de Dora Alcântara.

Belém - PA

Inventário de azulejaria em Belém do Pará – 1971 - 2016

Arquiteta pesquisadora e coautora da publicação “Azulejaria em Belém do Pará: inventário: arquitetura civil e religiosa: século XVIII ao XX”, com Stella Regina Soares de Brito e Thais Alessandra Bastos Caminha Sanjad.

Alcântara - MA

Estudos, planos e propostas de recuperação para Alcântara – década de 1960

Arquiteta coautora ou integrante de equipe com Pedro Alcântara em estudos, planos e propostas de recuperação urbana e patrimonial. Publicado em 1971 na revista Acrópole como “Recuperação de Alcântara.

Saiba mais

ALCÂNTARA, Antonio Pedro de. Aspectos do espaço barroco na arquitetura civil dos séculos XIX e XX. Apresentação de Dora Monteiro e Silva de Alcântara. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 149.08, out. 2012. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.149/4550.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de. Azulejos portugueses em São Luís do Maranhão. Rio de Janeiro: Fontana, 1980. 85 p. + XVII pranchas. Referência mantida em nível de auditoria, pendente de ficha catalográfica institucional ou exemplar conferido.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de. O sentido do tombamento. Boletim SPHAN/Pró-Memória, Rio de Janeiro, n. 39, p. 17, jan./fev. 1988. Disponível em: https://bibliotecadigital.iphan.gov.br/items/1c87b42a-b116-4862-85ca-4e40d0afd8e0/full.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de. Patrimônio azulejar brasileiro: aspectos históricos e de conservação: azulejo, documento de nossa cultura. Brasília: Monumenta/BID/Ministério da Cultura, 2001. Referência mantida em nível de auditoria, pendente de conferência direta do exemplar.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de (org.). Azulejos na cultura luso-brasileira. Rio de Janeiro: IPHAN, 1997. Referência mantida em nível de auditoria, pendente de conferência dos dados editoriais completos.

ALCÂNTARA, Dora Monteiro e Silva de; BRITO, Stella Regina Soares de; SANJAD, Thais Alessandra Bastos Caminha. Azulejaria em Belém do Pará: inventário: arquitetura civil e religiosa: século XVIII ao XX. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2016. Disponível em: https://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/azulejaria_belem_do_para_inventario.pdf.

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Projeto de Resolução n.º 791/2024: concede a Medalha Tiradentes e o respectivo diploma a Dora Monteiro e Silva de Alcântara. Rio de Janeiro: ALERJ, 2024. Disponível em: https://www3.alerj.rj.gov.br/lotus_notes/default.asp?URL=L3NjcHJvMjMyNy5uc2YvMGM1YmY1Y2RlOTU2MDFmOTAzMjU2Y2FhMDAyMzEzMWIvZjI5YmRiNDJiMzNkNjliMjAzMjU4YjI0MDA1ODI0NGE%2FT3BlbkRvY3VtZW50JkhpZ2hsaWdodD0wLDIwMjQwNTAwNzkx&amp=&id=161.

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Boletim SPHAN n.º 39. Rio de Janeiro: SPHAN/Pró-Memória, jan./fev. 1988. Disponível em: https://bibliotecadigital.iphan.gov.br/items/1c87b42a-b116-4862-85ca-4e40d0afd8e0/full.

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Iphan lança o livro “Entrevista com Dora Alcântara”. Brasília: IPHAN, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/sala-de-imprensa/notas-e-avisos-de-pauta/iphan-lanca-o-livro-201centrevista-com-dora-alcantara201d.

CAU/BR. Dora Alcântara recebe Colar de Ouro, maior comenda do IAB. Brasília: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, 2020. Disponível em: https://caubr.gov.br/dora-alcantara-recebe-colar-de-ouro-maior-comenda-do-iab/.

CAU/RJ. Dora Alcântara recebe Colar de Ouro, maior comenda do IAB. Rio de Janeiro: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, 2020. Disponível em: https://www.caurj.gov.br/dora-alcantara-recebe-colar-de-ouro-maior-comenda-do-iab/.

COSTA, Daniella Martins; MORGADO, Daniela Quireza Campos. O verbo feminino: patrimônio e memória nos escritos de Dora Alcântara. Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, v. 21, n. 2, p. 69-80, 2021. Disponível em: https://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cpgau/article/download/verbo.feminino.cadernos.pos.au.2021.2/11249.

COSTA, Daniella Martins; MORGADO, Daniela Quireza Campos. Vernácula e de contexto: contribuições de Dora Alcântara para um estudo tipológico em Petrópolis. Arquitextos, São Paulo, ano 23, n. 265.06, jun. 2022. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/23.265/8532.

IAB/RJ. Série Memórias do Patrimônio apresenta livro Entrevista com Dora Alcântara. Rio de Janeiro: Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://iabrj.org.br/serie-memorias-do-patrimonio-apresenta-livro-entrevista-com-dora-alcantara/.

NASCIMENTO, Flávia Brito do. Ao sul do Corredor Cultural: moradia e patrimônio na área central do Rio de Janeiro. Anais do Museu Paulista, São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/anaismp/a/jndsvpXG4S8vF4v9V8hvJQd/.

REVISTA RESTAURO. O patrimônio azulejar de Belém do Pará e seu inventário. Revista Restauro, São Paulo, 2018. Disponível em: https://revistarestauro.com.br/o-patrimonio-azulejar-de-belem-do-para-e-seu-inventario/.

SANTOS, Helena Mendes dos (org.). Entrevista com Dora Alcântara. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Centro Lucio Costa, série Memórias do Patrimônio, 2024/2025. Referência mantida em nível de auditoria, pendente de conferência integral dos dados editoriais. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/sala-de-imprensa/notas-e-avisos-de-pauta/iphan-lanca-o-livro-201centrevista-com-dora-alcantara201d.

VITRUVIUS. Arquitextos 265.06: Vernácula e de contexto: contribuições de Dora Alcântara para um estudo tipológico em Petrópolis. São Paulo: Vitruvius, 2022. Entrada mantida apenas como forma de rastreamento editorial do artigo de Costa e Morgado. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/23.265/8532.


Imagens

Foto 17.3 – Matéria da Revista Casa e Jardim, edição de 31/07/2021, autoria de Nathalia Fabro, intitulada: 8 arquitetas e urbanistas brasileiras que você precisa conhecer;

Foto 17.4 – Capa do livro: Azulejaria em Belém do Pará: Inventário – arquitetura civil e religiosa – século XVIII ao XX – fonte: site do IPHAN, ano de lançamento 2016, ISBN: 978-85-7334-291-8 (coautoras: Stella Regina Soares de Brito e Thais Alessandra Bastos Caminha Sanjad);

Foto 17.5 – Capa do livro: Azulejos na Cultura Luso-brasileira – Organização de Dora Alcântara – fonte: site do IPHAN, ano de lançamento 1997, ISBN-10: 857334010X e ISBN-13: 978-8573340105;

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