CAU/RJ
Mario Vodret nasceu em Cagliari, na Sardenha (Itália), em 1893, filho de filho de Giovanni Vodret com Pia Troni. O sobrenome Vodret aparece em Cagliari associado a famílias de comerciantes, engenheiros e profissionais técnicos. Sua formação é tradicionalmente atribuída a um percurso iniciado em Bologna e concluído em Roma, sem especificação de datas.
Entre 1919 e 1920, Vodret aparece ligado ao Concorso Montiroli, concurso de arquitetura vinculado à Accademia di San Luca, em Roma. O tema da prova era o projeto de um Instituto de Belas Artes na capital de uma grande nação. Vodret figurava entre os concorrentes admitidos, ao lado de Giovanni Biseo, Amerigo Mattioli, Mario Contigliozzi, Pietro Angelici e Leonardo Rizzani. O concurso havia sido suspenso durante a Primeira Guerra Mundial, foi retomado depois do conflito, mas terminou sem entrega de trabalhos no prazo final de 1920.
A fase italiana da atuação profissional de Mario Vodret, anterior à sua chegada ao Brasil, pode ser reconstruída com maior consistência a partir de um conjunto de obras residenciais em Roma, Cagliari e Ostia, além de sua produção técnica publicada. Em 1924, Vodret aparece associado a um núcleo de obras residenciais em Roma, concentrado, sobretudo, no entorno de Via Savoia e Via di Villa Albani. A antiga Villa Palmieri, também referida como Villino Palmieri, localizada na Via di Villa Albani, n.º 20, é uma das obras mais bem documentadas desse grupo. A edificação é descrita como construção de linguagem eclética, originalmente parte de um conjunto residencial mais amplo. Trata-se de uma palazzina ou villino de caráter senhorial, posteriormente ocupada por instituições e hoje vinculada à Fondazione NC. Nesse mesmo ano, também é citado o projeto da Casa Palmieri, situada em Roma, na Via Savoia. A obra aparece registrada como villino ou residência urbana de linguagem neogótica. Temos, ainda, o Villino Sorcinelli, associado à Via Savoia ou ao seu entorno. Essa obra é atribuída a Mario Vodret como projeto arquitetônico de um villino em linguagem neogótica ou historicista.
Além dessas obras, a tradição bibliográfica italiana menciona ainda um edifício vizinho na Via di Villa Albani, n.º 16, hoje associado ao Instituto Cervantes, como parte do mesmo ambiente de obras residenciais e institucionais relacionadas ao conjunto da Villa Palmieri e à produção de Mario Vodret. Em 1925, a atuação italiana de Mario Vodret se amplia para Cagliari, sua cidade de origem provável, com o Villino Ledda, situado na Viale Trento, 51. A edificação é descrita como uma villa de forma irregular, com muros perimetrais em pedra e tijolo e cobertura composta por setores em duas águas e partes em pavilhão. Em 1927, aparece outra obra italiana relevante, a Palazzina in Ostia a Mare di proprietà del Cavaliere Pasquale Palmieri, publicada em L’Architettura Italiana, periódico mensal de construção e arquitetura prática, n.º 11, de 1927. A obra está relacionada a uma palazzina residencial ou de veraneio em Ostia a Mare, área litorânea próxima a Roma. No mesmo ano, Mario Vodret publicou, em Roma, o manual técnico Attrezzatura del cantiere: libro di testo per i corsi di perfezionamento nell’arte edile, editado pela Enios. A obra possui 254 páginas com ilustrações e estava ligada a cursos de aperfeiçoamento na arte edilícia.
A chegada de Mario Vodret ao Brasil é situada em 1928, quando teria cerca de 35 anos, e costuma ser associada à rede formada por Gabriella Besanzoni, cantora lírica italiana, e Henrique Lage, industrial brasileiro que então promovia a reformulação de sua residência, no atual Parque Lage.
A tradição atribui a Mario Vodret o projeto ou a remodelação do palacete de Henrique, usualmente datado de 1927. Segundo essa leitura, o arquiteto teria sido chamado para conferir à residência uma feição eclética de matriz italiana, compatível com o repertório europeu da proprietária e com a função social e artística que o palacete assumiria na vida da elite carioca. Sua participação teria se dado na concepção arquitetônica ou reformulação do casarão, organizado em torno de pátio central com piscina, galerias internas, composição simétrica e repertório ornamental de inspiração classicizante e italiana. A data de 1927, frequentemente associada ao projeto do palacete, precisa ser tratada com cautela em relação à cronologia de Mario Vodret, uma vez que sua presença no Brasil é mais bem documentada a partir de 1928. Nesse sentido, é possível que sua atuação tenha ocorrido no limite entre a concepção final, adaptação do projeto e definição formal do palacete, ou no acompanhamento de alguma etapa posterior da obra. A principal contestação à autoria do arquiteto decorre de pesquisas acadêmicas que registram a hipótese de Riccardo Buffa ser o autor inicial do projeto, atribuição apoiada por um desenho datado de 1925.
No Rio de Janeiro, a obra brasileira mais fortemente associada a Vodret é o Grande Templo Israelita, situado na região central da cidade, nas proximidades da antiga Praça Onze. O edifício foi concebido no contexto de afirmação pública da comunidade judaica carioca, que buscava construir uma sinagoga monumental, projetada especificamente para esse fim. A tradição mais consistente situa o projeto entre 1928 ou 1929, e a inauguração do edifício em 1932. A participação de Mario Vodret se deu no âmbito de um concurso organizado pela coletividade judaica do Rio de Janeiro, quando seu projeto foi escolhido em primeiro lugar. A escolha de um arquiteto italiano não judeu para uma sinagoga monumental é significativa, pois indica que a comunidade buscava uma solução arquitetônica de prestígio, capaz de dialogar com modelos europeus de monumentalidade religiosa e, ao mesmo tempo, afirmar a presença judaica em uma capital em transformação. O projeto de Vodret teria sido posteriormente adaptado por Guido Levy, arquiteto italiano e judeu, o que sugere uma segunda etapa de adequação do desenho às exigências litúrgicas, simbólicas e comunitárias do edifício. O edifício apresenta linguagem eclética, monumental e historicista, inspirada em repertórios da arquitetura sinagogal europeia, especialmente nas grandes sinagogas de Trieste e Florença.
O Edifício Seabra, situado na Praia do Flamengo, também constitui importante obra atribuída a Mario Vodret, e que também melhor expressa sua relação com a arquitetura residencial de prestígio no Rio de Janeiro do início da década de 1930. A construção é geralmente datada de 1931, inserido na frente marítima do Flamengo em um momento de valorização da antiga Avenida Beira-Mar e de consolidação de edifícios residenciais verticais destinados às elites urbanas. Sua escala, seu tratamento ornamental e sua presença paisagística distinguem o edifício no conjunto de edifícios, o aproximando de uma cultura residencial aristocrática e burguesa que buscava, no início do século XX, conciliar verticalização, luxo doméstico e referências europeias. Essa relação dialoga com o perfil profissional que Vodret trazia da Itália, especialmente com sua experiência nas residências romanas. O Edifício Seabra pode ser entendido como uma transposição ampliada desse repertório para a escala do edifício residencial vertical de luxo. A obra é frequentemente relacionada ao comendador português Gervásio dos Santos Seabra e à sua esposa, Assunta Grimaldi Seabra, italiana. Em alguns relatos, a execução da obra é associada à empresa J. A. Costa & Cia.. Vodret teria se concentrado na concepção arquitetônica geral, no desenho das fachadas, na organização espacial de prestígio e no tratamento decorativo dos ambientes comuns. Também são mencionadas inovações técnicas associadas ao edifício, como incinerador de lixo, rádio e telefonia, iluminação automática, minuteria e relógio elétrico no hall, indicando que o projeto articulava aparato simbólico, conforto residencial e modernização técnica.
A Igreja, atual Santuário de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência, situada na Rua do Catete, 113, apresenta uma relação mais cautelosa com Mario Vodret. A obra aparece como atribuição ao arquiteto, com datação ampla entre 1931 e 1940. A intervenção atribuída corresponderia ao projeto ou à participação no projeto arquitetônico de uma igreja urbana vinculada ao complexo religioso e educacional dos Barnabitas e do Colégio São Zaccaria. Em conjunto, o Edifício Seabra e a Igreja de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência ajudam a delinear duas dimensões distintas da presença do arquiteto no Rio de Janeiro.
Além das obras mais conhecidas, a presença de Mario Vodret no Rio de Janeiro parece ter incluído uma atuação residencial mais ampla, ainda pouco individualizada pela historiografia. Em levantamento sobre o patrimônio eclético carioca, seu nome aparece associado a dois projetos residenciais, um unifamiliar e outro multifamiliar, datados entre as décadas de 1920 e 1930.
A firma Vodret Cia Ltda., é outro dado importante para compreender a inserção profissional do arquiteto no Rio de Janeiro. Em 1936, aparece registro da firma na seção de arquitetos do Almanak Laemmert, com endereço na Rua 7 de Setembro, nº 75. A documentação relacionada ao Grande Templo Israelita acrescenta uma camada relevante a essa firma, que aparece associada a questões administrativas e societárias da obra, inclusive à cessão de cotas por Mario Vodret e à presença de nomes como Guido Cohen. Esse ponto é importante porque sugere que a atuação do arquiteto no Brasil não se limitou ao desenho arquitetônico, mas também envolveu algum tipo de organização empresarial ou contratual em torno da execução, administração ou responsabilidade técnica de projetos.
Não há registros de quando Mario Vodret retornou à Itália. Sua carreira carioca parece ter sido relativamente breve, iniciada em torno de 1928 e concentrada entre o fim da década de 1920 e a primeira metade da década de 1930. Sua morte se deu em Roma, em 1948 ou 1949. Sua produção revela um perfil de engenheiro-arquiteto ligado ao ecletismo italiano, à cultura técnica do canteiro e à adaptação de repertórios europeus a contextos urbanos diversos.
Rio de Janeiro - RJ
Projeto arquitetônico do palacete de Henrique Lage e Gabriella Besanzoni, organizado em torno de pátio central com piscina, galerias internas, composição simétrica e repertório ornamental de inspiração classicizante italiana.
Rio de Janeiro - RJ
Projetista da concepção arquitetônica geral, fachadas, organização espacial de prestígio e tratamento decorativo dos ambientes comuns; execução associada à empresa J. A. Costa & Cia; obra associada ao comendador Gervásio dos Santos Seabra e a Assunta Grimaldi Seabra.
Rio de Janeiro - RJ
Vodret venceu o concurso organizado pela coletividade judaica do Rio de Janeiro para uma sinagoga monumental; projeto posteriormente adaptado por Guido Levy, arquiteto italiano e judeu.
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Foto 37 – Mario Vodret – fonte: https://it.wikipedia.org/wiki/Mario_Vodret
Foto 37.1 – Parque Lage, Jardim Botânico, RJ – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.1 – Parque Lage – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.2 – Parque Lage – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.3 – Parque Lage – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.4 – Parque Lage – Sarau com Gabriella Besazoni – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.5 – Parque Lage – vista interna, com detalhe do teto – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.6 – Parque Lage – vista interna – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.7 – Parque Lage, fachada principal – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.8 – Parque Lage, fachada principal – fonte: IMS/foto de Carlos Moskovics, circa 1944;
Foto 37.1.9 – Residencia do senhor Henrique Lage, Jardim Botânico, RJ – vista aérea – fonte: BND/autor: Holland S.H; circa 1930 – CDD: 728.098153;
Foto 37.1.10 – Parque Lage, Jardim Botânico, RJ – Planta baixa do pavimento térreo – fonte: Guia da Arquitetura Eclética no RJ/PCRJ/SMU, pág. 119;
Foto 37.2 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – fonte: Guia da Arquitetura Eclética no RJ/PCRJ/SMU, pág. 95;
Foto 37.2.1 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – Planta baixa do pavimento tipo – fonte: Guia da Arquitetura Eclética no RJ/PCRJ/SMU, pág. 95;
Foto 37.2.3 – Edifício seabra, Flamengo, RJ – desenho da fachada – fonte: Urbanacon, ano 2018;
Foto 37.2.4 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – foto do teto da portaria – fonte: Urbanacon, ano 2018;
Foto 37.2.5 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – foto da fachada para a Rua Ferreira Viana – fonte: Araújo, 2011, pág. 26 e 27;
Foto 37.2.6 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – Acervo da Revista O Malho/BND, data: 02/01/1932, edição 1515;
Foto 37.2.7 – Edifício Seabra, Flamengo, RJ – Acervo da Revista O Malho/BND, data: 02/01/1932, edição 1515;
Foto 37.2.8 – Capa do Livro: Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295 – fotos do livro seguem abaixo;
Foto 37.2.9 – Circulação interna, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295; pág. 14;
Foto 37.2.10 – Acesso principal pela Praia do Flamengo, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 18;
Foto 37.2.11 – Detalhes de fachadas, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 48;
Foto 37.2.12 – Hall principal, acesso pela Praia do Flamengo, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 49;
Foto 37.2.13 – Circulação interna, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 50;
Foto 37.2.14 – Detalhe teto do Hall principal, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 56;
Foto 37.2.15 – Detalhe da fachada, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 64;
Foto 37.2.16 – Vista do edifício a partir do Parque do Flamengo, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 70;
Foto 37.2.17 – Detalhe coroamento do edifício, livro Edifício Seabra, autora: Maria Araujo, editora Yvelinédition, lançamento 2011, ISBN: 978-2-84668-295, pág. 102;
Foto 37.3.2 – Desenho da Fachada do Grande Templo Israelita, Rua Tenente Possolo nº 8, Centro, RJ – fonte: Acervo do grande templo israelita do rio de janeiro.
Foto 37.3.3 – Grande Templo Israelita , Acervo Urbanacon, 2026
Foto 37.3.4 – Grande Templo Israelita , Acervo Urbanacon, 2026
Foto 37.3.5 – Grande Templo Israelita , Acervo Urbanacon, 2026
Foto 37.3.6 – Planta do térreo – fonte: CEDAE; DEUTSCH, Luciana, (RE)construindo memórias: Projeto para o reuso do Grande Templo Israelita, Trabalho de Conclusão de Curso em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estácio de Sá, 2018
Foto 37.3.7 – Planta do Subsolo – fonte: CEDAE; DEUTSCH, Luciana, (RE)construindo memórias: Projeto para o reuso do Grande Templo Israelita, Trabalho de Conclusão de Curso em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estácio de Sá, 2018
Foto 37.3.8 – Planta do 1º Pav. – fonte: CEDAE; DEUTSCH, Luciana, (RE)construindo memórias: Projeto para o reuso do Grande Templo Israelita, Trabalho de Conclusão de Curso em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estácio de Sá, 2018
Foto 37.3.9 – Panta do 2º Pav. – fonte: CEDAE; DEUTSCH, Luciana, (RE)construindo memórias: Projeto para o reuso do Grande Templo Israelita, Trabalho de Conclusão de Curso em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estácio de Sá, 2018